Atentai no cântico que aqui vos deixo ...Já no ano passado vos falei nele quando me alarguei ,duma maneira genérica , sobre a muitas cerimónias que as Terras de Idanha-a-Nova nos oferecem durante o período quaresmal . No entanto muitas dessas cerimónias merecem uma chamada de atenção mais minuciosa . Falei-vos dela , da Encomendação das Almas , e mostrei mesmo uma imagem , nessa postagem de há um ano . Disse-vos que ela decorre todas as 6ªs feiras da Quaresma à Meia-noite , mesmo na última e após Enterro do Senhor já ter sido recordado . Digamos que , em Idanha-a-Nova , é a última grande cerimónia antes da alegria transbordante que é o Sábado de Aleluia ....
Quero apenas dizer-vos que , até há alguns anos atrás , era assim que a mulher enlutada por marido , pais ou filhos se vestia , fosse verão ou inverno . Mas , é assunto para outra conversa entre nós ...
Chamo ainda a vossa atenção para alguns termos usados , assim como para o Cântico ; ele é à Capela pois , a sua entoação é feita nos pontos mais altos da vila . Aqui , porque apresentado num concerto pelo Coral da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Idanha-a-Nova , na Igreja Matriz , aparece acompanhado pelo orgão . Eu prefiro à Capela !!! Vamos ver se este ano consigo gravá-lo .
Entre o Castelo Templário , com a vila aos nossos pés e o que resta ....do castro lusitano (onde foram ,há vários anos construidas algumas casas !!)
Ficam algumas imagens recolhidas em 2011 , num dia em que o "navoêro têméva em nos fazeri companhia "!!!
Acrescento a letra dos Cânticos :
À porta das almas santas
Bate "Dês "a toda a hora ,
As almas de lá respondem:
- Que" querendes mê Dês "agora ?
Quero que venhais comigo
" Pr'á "minha eterna glória
"Mai " da Virgem que m'adora .
Ó almas deste mundo
Que fazeis que" nã "rezais?
Lá "estarã" vossos irmãos
Vossos filhos ,vossos pais .
Acordai , se estais " dromindo ",
Nesse sono "tã porfundo "
Que podeis "amanheceri"
Sepultadas no outro mundo .
Ó almas que "tendens sedi"
Vinde ó Calvário a "boeri "
Que Jesus tem cinco "fontis"
Todas cinco a "correri ".
As almas doPurgatoiro "
Já gritam em alta voz,
Com as mãos postas "ó"céu
Irmãos lembrai-vos de nós.
Ò almas que estais "dromindo "
Nesse sono "tã porfundo ",
Rezemos um "Padre -Nosso"
Às almas do outro mundo .
--A recolha dizem ter sido feita por José Alberto Sardinha .No entanto ,eu ainda não esquecera aquilo que ouvira e cantara com minha avó materna e minha mãe ,tal como outros familiares e amigos .Daí que a forma como disponho os versos , nem sempre seja em quadras ; o mesmo sucede com alguns termos que utilizo para que não corram o risco de ser absorvidos pelo "vernáculo " e esquecidos .No meu caso , faço sempre questão de realçar o "subdialecto da zona interior sul da Beira Baixa" para que levados por "pruridos "não acabemos esquecendo as nossas raízes .
------ Digo-vos ainda para concluir que o Padre -Nosso , para além desta diferença apresenta outras como :"...perdoai Senhor as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores .."Esta oração ,tal como a "Adê Maria " são rezadas no fim de cada vez que se entoa o Cântico .
ESPERO SUSCITAR A VOSSA CURIOSIDADE PELAS NOSSAS TRADIÇÕES E , SE QUISEREM VIR ATÉ NÓS , JÁ SABEM : Estamos à vossa espera DE BRAÇOS ABERTOS .
BEM-HAJAM
A Meus Pais .... ___A simplicidade deste poema ___
É Natal !...
e antigamente , os preparativos começavam para nós,
com o fazer do presépio e das filhós.
E que lindos eram os presépios de nossa mãe...
com pedras ,musgo ,pratas ,espelhos e figurinhas,
como ela os fazia bem .
Nunca iguais ...
Eram os presépios de nossa mãe ...
sempre lindos e quase irreais !
Oh ! , como ela os fazia bem...
Na noite de Natal ,
não se colocava no presépio os sapatos ...
Nem pensar !!!
Presépio ...era para orar ,
pedir , rezar , louvar ,
a lamparina acender....
Era para recriar
o mistério do nascimento d'Ele e agradecer
Era para colocar
a estrela de Belém ,
ali por cima da gruta
onde os Reis Magos chegariam também .
Era para nele depormos
o nosso dia de luta ,
para nele entregarmos
as nossas esperanças de paz,
ou os nossos sonhos de menina e rapaz....
Mas nunca ,nunca aquilo que se trazia nos pés.
Não !.. esses ...corriamos a pô-los na chaminé .
E nós acreditávamos ,
acreditámos durante muitos anos
que Ele vinha pela chaminé
trazer os presentes que pedíamos...
Nosso pai perguntava sempre :
"Que vos deu o Menino Jesus ?"
E nós , ingénuos , corriamos para ele
mostrando o que haviamos recebido...
Nunca perdendo a compostura
dizia-nos :
"Vêem como o Menino Jesus é bom ?"
E era...
Quantos ,como nós ,
na Idanha de então ,
recebiam os presentes
com que sonhavam dentro do seu coração ?!
Poucos ....não ?!...
INFELIZMENTE...
A vida era dura ,antigamente !
Então ....
tinhamos mesmo recebido os presentes
do Menino Jesus .
Bem -hajam ,pois , mãe e pai ,
pela ingenuidade que nos alimentaram ,
pelo doçura que nos transmitiram ,
pelo saber partilhar que nos ensinaram.
Bem -hajam pelos muitos Natais que nos deram....
De : Quina Salgueiro ---escrito no Natal de 2009
nas terras de Idanha-a.Nova A TODOS os que têm a imensa bondade de visitar este blogue deixo aqui , a par do meu agradecimento , os votos sinceros de um NATAL MUITO FELIZ ,com muito amor ....Desejo também que o Novo Ano vos seja leve , doce ,...como o vosso coração o ânsiar ....
E , lembrando os cantares da minha terra ,onde a Noite do Caramelo , digo : "Ó mê Menino Jasus , ó mê Menino tã belo logo veéste nasceri na noute do caramelo . Entrai pastoris entrai , por estis portais sagrados, vind'àdorar o Menino numas palhinhas deitédo. De quem sã as camezinhas que Senhoura está lavari , sã do Menino Jasus , qu' inda está por batizari .
Refrão : Quem me dera , quem me dera , quem me dera cá na mão , as filhoses na caldêra , o vinho no garrafeum . Natal , Natal , Natal , Natal , Felhoses com vinho nã fazem mali..."
No Natal desses tempos não havia a figura do Pai Natal ....O centro de tudo era o presépio que S. Francisco de Assis criou para passar a mensagem do Natal ; amor , humildade , harmonia familiar ,eis o que S. Francisco nos quis transmitir . Assim foi durante muitos anos . Nas terras de Idanha-a-Nova , a árvore de Natal ainda hoje não tem um papel de tanto relevo como o que tem o presépio . A noite do Caramelo essa !!!!, continua a ser única : Madeiros , (9 ), a arder desde o entardecer do dia 24 até se apagarem ....Tal pode durar mais uns 2 dias ....A juventude e não só , continua a fazer deles o centro de convívio dessa noite .Há cantares , vinho ,água-pé , chouriços , morcelas , febras , etc, etc,...Tudo isto após a ceia e a Missa do Galo ,onde o Menino é dado a beijar e os cânticos são aqueles que o povo entoa na rua.... , apenas retirando o refrão ...
O Natal idanhense continua a ter a magia da minha infância .Pelo menos a interioridade .... serviu para a manter....
Hoje vou falar-vos de uma tradição que não é só das terras da velha Egitânia , mas que existe em muitos locais do nosso país . No entanto , ela traz-me à memória os meus tempos de criança quando , chegada a época da apanha da azeitona e aí entre as 4 e as 5 horas da manhã , acordava ao som do búzio tocado no Largo do Espírito Santo (ou do Santo Sprito , do Jardim , Engº Sá e Melo e , actualmente , 25 de Abril ) ,para reunir o "pessoal " que dali partia em "ranchos " para realizar tal tarefa . Caminhariam , então , até ao olival . Elas ,as mulheres levavam no braço ou à cabeça "por cima da rodilha " a cesta com o "fanoco de pã , azêtonas sapateras ou o meguélho de quêjo" com que se alimentariam ,cesta essa que utilizariam também na apanha das "azêtonas" ; eles , os homens , carregavam ao ombro o " sarreum " onde haveria idêntico farnel apenas ,por vezes enriquecido com uma pequena "tora " de toucinho já da "salgadêra " . No outro ombro carregavam as escadas com que haviam de subir às "olevêras" e a manta de "orêlos " para que nenhuma azeitona se perdesse mesmo caindo fora do tendal .As mulheres , muitas vezes , entoavam cantigas para que o caminho lhes parecesse mais curto ; as mesmas se ouviriam ao longo do dia durante a apanha . Chegariam aos campos antes do "estreleum naceri " e voltariam à vila "apous ele si pôri". Era uma faina dura que se estendia por todas as freguesias das terras de Idanha-a-Nova que sempre foram terras de azeite . Recordo que por todo o concelho havia lagares onde se fazia o azeite que as nossas gentes iriam usar ao longo do ano . O uso do azeite estava de tal modo infiltrado em nós que mesmo a nossa doçaria tradicional sempre foi feita com ele e nunca com qualquer manteiga . Contudo e, porque os tempos eram outros ,esses múltiplos lagares ,como de S. Miguel D'Acha , a Olêdo , a Proença -a-Velha , a Idanha-a-Velha , ao Ladoeiro e ,muitos outros pelas 17 freguesias deste vasto concelho , faziam uma comercialização local ou regional dos azeites destas terras . A forte corrente migratória dos anos 60 /70 fez com que muitas dessas azeitonas que dantes eram colhidas para comer retalhadas , curadas de salmoura ou transformadas em azeite ,passassem a ficar nas árvores e caíssem ao chão . Mas , eis que os tempos mudaram de novo e ,neste momento , alguns jovens e menos jovens olham de novo para os seus olivais . Associados em torno duma cooperativa numa terra sempre conhecida pelo seu dinamismo , o Ladoeiro , lançam , há 3 anos o 1º azeite das terras de Idanha-a-Nova . Porém, não se limitaram a fazê-lo numa qualquer garrafa . Primeiro criaram garrafas , quais obras de arte, onde mostraram aspectos simbólicos das nossas terras . Agora ,foram mais longe e , apresentam garrafas de vidro escuro para proteger a qualidade do azeite , numa embalagem onde nos anunciam que estão de regresso. A maneira como o fazem , as palavras que escreveram , a carga simbólica , que envolve estas garrafas de azeite ,é de tal modo forte que me levou a partilhá-la com todos os que tiverem a paciência de ler este simples blogue . A época pareceu-me sem dúvida propícia para abordar tal temática ...Azeite lembra-nos o Natal , as fillhós (ou filhoses ,como se diz por estas terras) , as fatias douradas o bacalhau com as couves" trontchudas" que necessitam desse néctar dos deuses ; a "limparina" de azeite , que como manda a tradição destas terras , devemos colocar no presépio ; a bica de azeite que devemos estará também na mesa da ceia reunindo toda a família ,antes da caminhada pelos "madêros " . Muitos virão de longe , do estrangeiro mesmo ...e... é aqui que sou de novo levada a pensar nessa embalagem e nesse texto maravilhoso que fala de regresso....
Afinal , nela está a "orige "do mê scrito " ...É pois com ela , onde nos surge logo e em destaque a palavra "ORIGEM " que vos quero deixar... Para mim ela carrega vários símbolos : o nome ORIGEM , a oliveira chamando a nossa atenção para a necessidade que o Homem tem de PAZ ; a forma oval da embalagem que , para além de lembrar a azeitona que nos dá o azeite , marca da nossa cultura mediterrânica , nos fala do azeite símbolo de LUZ e , finalmente , a mim pelo menos ,.... traz-me à mente pela sua forma oval o "ovo " que significa "RENASCER " " Será que consigo fazer chegar até vós toda essa simbologia ? Espero que sim.
Mas , vejamos ainda : os rostos da gente da nossa terra ,que representam as 17 freguesias do nosso concelho ,têm entre 90 e 103 anos ...São lindos, não é verdade ?! E transbordam de ternura ....Falam com os mais novos ... Lembram -lhes aquilo que lhes pode ter sido dito pelas gentes de terras "lá de fora "! e, de como os foram convencendo a ficar por lá !Falam-lhes da voragem do tempo nas grandes cidades e dizem-lhes que "TALVEZ SEJA TEMPO DE REGRESSARMOS À ORIGEM " ...DE REENCONTRARMOS QUEM UM DIA FOMOS ." E que mais dizem ? Transcrevo de novo ,mas estas palavras que se seguem ,não são da nossa gente . São vozes carregadas de maus presságios , qual coro em peça de Teatro grego....As tais dos "senhores de fora "!!!! " Os meninos que adormeceram nos nossos olhos Não têm tempo /e devem recusar acreditar que / Podem mudar as nossas vidas/Sabemos que é difícil aceitar mas / nada resta das crianças que corriam por esta campina fora /Estaríamos mentindo se disséssemos que /vão conseguir encontrar quem um dia foram /Assim , vão ter que entender que /são a coisa mais importante das vossas vidas / Vão ter que explicar aos vossos filhos que / O Trabalho é mais importante que / A Família / Têm a certeza /Existe Gratidão , Humildade e Bondade/Mas isso não é verdade na nossa era /Esta é uma sociedade com ânsia de glória/Os doutos dizem-nos /Serão uma geração de olhos vazios , de coração que não se mostra /Vocês não acreditam que /Irão transmitir aos vossos filhos saberes de ouro/No futuro / o vosso legado será memória perdida /Não se pode dizer que /Vocês se preocupam com a vossa terra , com as vossas gentes /É evidente que /Vossa geração está perdida , corrompida /É absurdo supor que/ HÁ SONHO NA VOSSA ESPERANÇA ." A elas os rostos protectores dos nossos anciãos ,doutos sim , pelo aprendizado da vida respondem : "É TEMPO DE INVERTERMOS OS NOSSOS VALORES HÁ SONHO NA NOSSA ESPERANÇA É absurdo supor que /A vossa geração está perdida , corrompida /É evidente que / Vocês se preocupam com a vossa terra , com as vossas gentes / Não se pode dizer que /O vosso legado será memória perdida / No futuro/ Irão transmitir aos vossos filhos saberes de ouro / Vocês não acreditam que / Serão uma geração de olhos vazios , de coração que não se mostra / Os doutos dizem-vos / esta é uma sociedade com ânsia de glória /Mas isso não é verdade na vossa era / existe Gratidão , Humildade e Bondade / Têm a certeza / A Família / É mais importante que / O Trabalho / Vão ter que explicar aos vossos filhos que /São as coisas mais importantes das vossas vidas / Assim ,vão ter que entender que / vão conseguir encontrar quem um dia foram /Estaríamos mentindo se disséssemos que /Nada resta destas crianças que corriam por esta campina fora / Sabemos que é difícil aceitar mas / Podem mudar as vossas vidas /E devem recusar acreditar que /Não têm tempo ." Assim falou a voz da sabedoria ...Resta-nos combater os coros da tragédia e fazer crescer nos nossos corações os ensinamentos que só a longevidade nos dá ..
Desta terra chamada Ladoeiro ,quero dizer-vos : Pertence ao concelho de Idanha-a-Nova , de que dista cerca de 10 km ; situa-se em plena campina ,possuindo terrenos fertéis e irrigados ; já produziu toneladas e toneladas de tomate tendo mesmo uma fábrica que as "ditas cotas europeias " levaram a fechar ; produz boa fruta e produtos hortícolas ; é considerada a capital da melancia sendo esta mesma tida , pelas suas características , como a melhor do mundo .Mas ,mais : tem uma igreja com um altar barroco lindo ; possui um "grupo de adufeiras " (música tradicional )e um outro grupo folclórico chamado "Raia dos Sonhos " ; têm uma piscina olímpica e um Hotel ,óptimo, chamado "Idanha Natura "para além de , a meio da estrada que a liga a Idanha-a-Nova ter " A Casa das Jardas " --turismo rural de boa qualidade e preço bastante acessível .Rematando : a vista de Idanha-a-Nova, alcantilada no cimo da escarpa do rio Ponsul , é soberba . E o azeite que aqui nos trouxe ?! A produção rege-se pelos princípios da tradição local ,a partir das 3 castas de azeitonas, cordovil , galega e bical , vinda de todo o concelho . O lagar é de maquinaria moderna . Já foi apresentado e tem a designação DOP . Prevê para este ano uma produção de 110 mil litros . Por enquanto ,só está à venda na Cooperativa ,mas a sua comercialização ao nível do país está para breve. Claro que a venda para o estrangeiro também se coloca .... Por último , extra virgem ,"É ÓPTIMO "!!Provei-o ,como me ensinaram desde pequena ...molhando o dedo ...seguido de o molhar dum pedaço de pão ... e se este for da região ainda melhor!!!
Nos dias 1 e 2 de Novembro , como todos sabemos , celebra , a Igreja Católica , os dias de Todos os Santos e o de Finados . Nos países anglo -saxónicos e , devido à influência celta , comemora-se de 31/10 para 1 /11 a Noite das Bruxas . Esta vem entrando , pé -ante -pé , no hábito de alguns portugueses . Sinceramente , a "festa das bruxas " ( não quero , propositadamente , usar o termo inglês!!) nada me diz . Talvez , porque fui criada no meio de outras tradições , mais de raíz lusitana ( embora alguns digam que celtizadas...? !) a referida festa não desperta a minha atenção . Agora , se me falarem de "pão por Dês (Deus ) "de "santoro ou de rosca" , as coisas começam a mudar de figura !!! De facto , essas são as tradições em que me revejo
Desde os tempos mais remotos que aqueles que habitaram esta região da Beira Interior Sul , nos deixaram não só tradições transmitidas oralmente , mas mesmo monumentos que delas nos falam . Esses monumentos são os que todos conhecemos por "Cultura Megalítica Portuguesa " e a que se lhe seguiu ,isto é ,a Cultura Castreja . Os Menires , as Antas ou Dolméns são provas bem visíveis de que os nossos antepassados , desde os tempos mais pretéritos , já prestavam culto aos seus mortos . É exactamente um dolmén , que podemos encontrar no espaço onde se realiza a Feira Raiana , que aqui mostro . À sua frente , existem escavadas nas rochas "pias " umas com forma antropomórfica (talvez sepulturas ), outras rectangulares .Tal , faz-nos lembrar que os povos que vieram habitar esta região , continuaram naquele local a praticar culto em louvor de deuses e de mortos , fazendo sacrifícios de animais em sua honra . Esta era uma das tradições dos Lusitanos . Também na margem direita do rio Ponsul e perto da barragem de Idanha-a-Nova encontramos várias sepulturas escavadas , outras feitas com xisto , alinhadas em círculo , juntamente com menires ou menhires . Sabemos que os Lusitanos praticavam os seus cultos perto de cursos de água , em clareiras , sendo os seus altares , muitas vezes ,no cimo dos "barrocos " que proliferam pela região . Os mortos eram cremados em piras , como os historiadores da época nos relatam quando nos falam , por exemplo , das cerimónias em honra de Viriato. Diz-nos Diodoro da Sícilia e Estrabão que os guerreiros entoaram cânticos glorificantes em louvor do seu chefe ; realizaram combates homem a homem , tendo alguns morrido ; as armas e o seu cavalo foram igualmente incinerados com ele . Há pois aqui um culto que se traduz no louvor e no pranto , na glorificação da vida e da morte , juntas no adeus ao chefe . De facto , até há alguns anos , este louvar misturado de prantos , estava ainda , entre outros aspectos , nos hábitos dos idanhenses .
Natural é , que mesmo após a romanização , os lusitanos continuassem a praticar os seus cultos aos mortos e aos deuses . Entre estes ,estavam o Sol e e a Mãe Natureza . Ora , no fim daquele mês a que nós chamamos Outubro , a Mãe natureza entra num período que a conduz à maior noite do ano , ou seja ao solstício de Inverno . É este um período de reclusão , de ficar em casa junto à lareira , de preparar o tempo que há-de vir em que tudo renascerá .O Sol precisará de "força "pois esta vai-se perdendo até ao solstício de Inverno .Portanto , as festas que os anglo -saxões chamam de "Noite das bruxas " e que se prolongam , no nosso caso até dia 2 de Novembro , são festas de tristeza ,de morte .... A Natureza desfalece ...Regressa ao ventre da "Mãe "!!!O homem tem de guardar alimentos para esse período , mas também estes têm de proporcionar o renascer quando o sol começar a subir e a brilhar , subindo no horizonte . Por isso , em Idanha-a-Nova os padrinhos ,que têm por obrigação substituir os pais se "estes passarem para o lado de lá !",devem dar aos afilhados no início deste ciclo o "santoro ".Este é o nome dado à oferta composta por um bolo em forma de ferradura (não esquecer que a ferradura afasta o mal ...) a que se chama rosca e maçãs bravo esmofe , laranjas , marmelos , romãs, passas de figo , amêndoas , nozes , castanhas e "boletra "de "azinho"; em caso de padrinhos mais abastados , pode também incluir-se umas moedinhas ....Havia na minha infância, o costume ,ainda vivo e, que agora já não se vê , (não seria bom fazê-lo renascer ?!) , de as crianças andarem de porta em porta , pedindo frutas e frutos secos . Diziam ,então : "Pã por Dês"...Poderiam , mesmo fazer algumas traquinices , proferir algumas ameaças , à porta da casa onde nada lhes davam para guardarem nas bolsas de pano ou no sarrão que levavam ao ombro .Mas , se dessem algo , os moradores ouviriam os pedidos de bons auspícios e as rezas proferidas em sua honra e da sua família .
No entanto , no dia seguinte ,era e é ,o dia de recordar todos aqueles que partiram . O Cristianismo , instituiu-o ...seguindo a tradição luso -celta de que nessa noite se abria passagem entre os 2 mundos podendo os mortos entrar em contacto com os vivos . Hoje é um dia de mágoa ...de saudade . Mas , os "Cerimoniais da Morte " em Idanha-a-Nova , eram até há 50 anos algo que nos fazia recuar nos tempos e, se não havia piras crematórias , deparavámo-nos com um conjunto de regras e actos que nos faziam lembrar as nossas raízes ,continuando mesmo algumas delas a ser respeitadas pelos mais idosos . No entanto , hoje não quero falar-vos deles . São demasiado pesados , carregados de tais minúcias inesperadas que iriam quebrar a magia das crianças invadindo o "almiére " de cada casa ,afim de que com as dádivas recolhidas amenizarem as noites longas de inverno . Então , ouviram contar à luz do" lume e das candeias de azête ", estórias de bruxas e "lambesomens "que nessa "noute"andariam à solta pelas "sarranias onde os sês intigos e desabós lusitanos haviam lutédo" pela liberdade desta terra .Ouviram "atã estórias que só munto mai tarde intenderam ...Escuitaram outras de almas penadas que saindo do meio do navôero atacavam os que quegeram fazer mali ós sês desabós" ...Deixemo-las , hoje , recordar todo o mistério em que cresceram envoltas por serem filhas da serra , filhas de mães lusitanas que tanto sabiam pegar na "falcata" e lutar ao lado dos seus homens , como curar as suas "malêtas terendo-lhes o acedente". É bom recordéri esse tempos ; sintir-se um lusitano ao comer a boletra assada no lari e o pã fêto com ela , tal como ao bueri hidromeli ; julguér-si criança de saco ó ombro e dezeri : o que éi qu' o dia das bruxas tem de melhori ö a mai que o nosso "Pã por Dês "?!Brumas , bruxas , adevinhos , benzelheuns? ... Ó.., dexem-me sonhari ...Prometo falar-vos mais tarde...do "Cerimonial da Morte nas terras de Idanha -a-Nova ." Hoji quero tã só ser pecanina e pedir-vos:
Pã Por Dês Veginha , Pã Por Dês , veginho .... !!!!"
PS ..Deixem que vos diga algo mais . No dia de Todos os Santos ,manda a tradição e tal ainda hoje sucede , que restaurantes , cafés e outros estabelecimentos afins tenham no balcão passas de figo e outros frutos secos para que ,quem o quiser , se sirva gratuitamente . Alguns oferecem mesmo "jurpiga " ...O mesmo volta a suceder dia de S. Martinho .
Quanto às bebidas vindas do "fundo dos tempos " está para além do "hidromeli " , a sidra e um tipo de cerveja ( que também temos o hábito de dizer que veio dos árabes....Será que veio ou é mais um mito a derrubar ?) . Minha mãe e avó materna sabiam fazê-las . Quanto a mim , um dia destes vou experimentar fazer o hidromel e a sidra ....
Se perguntarem ,como eu já o fiz muitas vezes o porquê de certas tradições a resposta é :"já as cá incontremos ,veim dos nossos intigos..."Quando a resposta é esta , já sei ,não vale a pena mais questionar ,...elas vêm mesmo do mais profundos dos tempos , fazem parte de nós mesmos...
Nota : Se acaso não entenderem O dialecto idanhense , é só perguntarem...
Quanto ao mais , não esqueçam , sintam-se em vossa casa !!!
Quanto a mim ,agradeço reconhecida a vossa visita
Eis uma questão que muitas vezes tenho colocado , quando me interrogo sobre o despovoamento do interior!
SER TERRA MADRASTA significa , para as gentes de Idanha-a-Nova , ser POUCO FÉRTIL ou NÃO LHE GARANTIR O PÃO DE CADA DIA . Aliás , é essa a ideia que ao longo dos séculos tem perpassado , justificando assim ( e constantes foram tentativas dos nossos 1ºs reis de atrair população , através da doação de cartas de foral !!! ) as migrações periódicas para outras regiões de Portugal , incluindo os 2 arquipélagos e , mais recentemente , para o estrangeiro . Historiadores e Geógrafos , mesmo amantes da região , como é o caso do Prof,. Dr.Orlando Ribeiro , olham sempre para as terras ao sul da serra da Gardunha , como inóspitas , áridas , de clima dado a extremos ...No entanto , Orlando Ribeiro já ia dizendo que o Alto Alentejo deveria começar no rio Ponsul , pois as campinas de Idanha-a-Nova já tinham mais de planura do que de montanha !!!Exceptuava , claro , as formações graníticas e quartzíticas de Monsanto e de Penha Garcia , tal como a própria Escarpa do Ponsul , onde os Templários elevaram a vila de Idanha-a-Nova .
Mapa com os Castelos Templários assinalados . De destacar ainda , aVERDE ,a antiga VIA ROMANA que atravessava o concelho e o ligava a ALCÂNTARA e a MÉRIDA . A VERMELHO a actual A23 que segue um traçado que vem do séc. XIII , mas que ser permitiu reduzir de 6 para 2 horas a ligação a Lisboa e vice-versa ; espera a construção do IC31 que voltará a colocar , definitivamente , o nosso concelho no eixo Lisboa /Madrid As terras de Idanha-a-Nova situam-se a meio caminho desses 2 destinos . ..
OS TEMPLÁRIOS sim , Idanha-a-Nova , elevada a mando de Mestre Gualdim Pais , no século XII , ficou , até hoje presa à Ordem do Templo . Não que veja nisso qualquer mal , mas porque daí resultou o seu destino de reduto de defesa e de ataque , no que respeito diz à Reconquista Cristã ,à retoma aos mouros do território ocupado desde 713 ---ano em que conquistaram a Egitânia , --- e à tarefa de delinear as nossas fronteiras . Ora , tal facto , colocou não só a vila de que vos falo , mas toda a região sobre a qual a Egitânia romana exercera o seu poder , como um baluarte fundamental , 1º contra os mouros , depois contra qualquer tipo de invasão estrangeira ,desde os castelhanos ,aos espanhóis e aos franceses , do séc. XII ao Séc. XIX . Os Templários levantaram 7 castelos , que pela sua situação geográfica neste concelho ,mostram como a linha de defesa / ataque se dispunha , estrategicamente, seguindo o curso dos Rios Erges e Tejo . Sendo assim , lógico é que os cavaleiros do Templo passassem a ser os senhores destas terras , tendo depois sido substituidos pelos da Ordem de Cristo .Tal situação ,transformou , nos séculos XII e XIII , as terras da Egitânia em "terras onde era perigoso viver" porque sujeitas a ataques e correrias de árabes e cristãs . Estava , desse modo , instituido nas terras da velha Egitânia , não a tradição da "villa romana " cuja estrutura permanecera até à ocupação árabe e que ainda no século X maravilhara chefes mouros, mas o regime de latifúndio que as tem dominado desde a chegada dos Templários .Mesmo quando a ordem de Cristo ,nos finais do séc.XVI , começa a perder o seu carácter de ordem militar , se deu a partilha da terra . E mesmo quando a revolução liberal , fez com que o Estado tomasse para si os bens da Igreja , ao mesmo tempo que com a extinção de vários concelhos , retirou o poder militar a muitas antigas fortalezas da linha de defesa , não houve qualquer alteração na estrutura da propriedade egitaniense . Ele , o latifúndio , manteve-se , apenas as terras passaram para as mãos de nobres afectos ao novo regime tendo , muitos deles , as deixado ao abandono porque ficavam longe da capital .
Assim ,sem terra para cultivarem , a que se juntava o afastamento das vias de comunicação ,viram -na ,os egitanienses , transformada em zona de caçadas e de transumância dos gados fugidos às agruras dos invernos serranos ....Tiveram ,pois , os naturais do concelho de Idanha-a-Nova de procurar trabalho noutras terras ,fazendo-o quer temporariamente , quer por longos períodos de tempo . O regresso saudoso da terra , que até parecia madrasta , estava sempre nos seus corações e a pouco e pouco foram entendendo que não era a terra que os maltratava ,mas sim aqueles que continuavam a vê-los como se na Idade Média estivessem e ainda vivessem numa sociedade de servos da gleba e suseranos ...A pouco e pouco , foram e , vão continuando a tomar consciência de que a sua terra é mãe e do que ela lhes dá . Viram que afinal nela havia rios que a fertilizavam e que como o sangue que irriga o corpo do homem , eles irrigavam essas terras ,através de barragens e canais que se estendem pela campina .Olharam a boa" marouva"*(1) que ela lhes oferece todo o ano, desde os" malapos ,às camoesas , meguerdas , tanjarinas ,marroquinas ,tanjas , jospiros , figos de muntas colidades ,abêberas , gatchos ,melões e melancias , pexêgos carecas ou não , amêxoas, abrunhos , laranjas, da baia à sanguinea e à verde -doce"*(2) etc , etc ...Viram as searas que fizeram dos seus campos "o celeiro da Beira Baixa ", os milheirais , as "olevêras "com boas "azêtonas "e promessas de melhor "azête " ;contemplaram nas tapadas "sobrêras e "azenhêras "com os seus troncos prenhes de cortiça e os seus frutos , as "boletas ", que não só dão para alimentar os animais ,como para comer , assados como castanhas ; recordaram o fazer do pão de "boleta " como já o haviam feito os seus antepassados Lusitanos ; perceberam que podiam criar gado seu ,fosse ele ovelhas , cabras , "corrantchos "*( 3)ou vacadas ; voltaram a fazer o bom "quêjo"de ovelha ou de cabra , juntando ao "lête ", como os seus antanhos , o "cardo"que por todo o lado a natureza lhes oferece ; também lembraram como se fazia a " mantêga" e o" requêjeum"*; recordaram e voltaram a comer os espargos verdes , os "tartulhos " e as "criadilhas "; viram a boa hortaliça que crescia agora nos seus "tchões "(4), desde a simples couve "trontchuda " ao excelente" tomati"e ao "agrieum" que brota tenro e único de paladar junto dos ribeiros ou dos poços ; perceberam as ervas aromáticas que a natureza lhes oferecia e que podiam , eles mesmos , cultivar .Afinal , as "tílhias , as "cidrêras , o horteleum o poejo , a manjarona , a carquêja , os oregãs " e outros tantas aromas , sempre por lá estiveram ...Eram eles que perfumavam os ares , juntamente com o "rosmano " , a gesta e a xara "*(5) dando à Campanha aquele cheiro único que nos diz que estamos em casa . E , até mesmo , sem que os seus antepassados o tivessem sonhado, subitamente , fizeram ...um bom vinho . Agora sim , tinham com que acompanhar os seus óptimos pratos tradicionais . A "jurpiga "*(6) ficava para acompanhar os bolos , únicos alguns deles , como é o caso do"borratchão ". Sim , os egitanienses de outras eras , muito anteriores à nacionalidade , tinham , finalmente , encontrado o caminho de regresso a casa . A sua "campanha " esperava e espera por eles , não nas mãos de cavaleiros templários ou senhores ,mas nas mãos de quem conhece essa terra como ninguém e por isso mesmo a ama...
Quero crer que o regresso começou , perfumado pelos aromas das "Ervas de ZOÉ" e que , finalmente , AS TERRAS DE IDANHA-A-NOVA começam a provar que SÃO MÃE e não madrastas !!!...
Alguns exemplos de produtos das Terras de Idanha -a-Nova :
Queijo de ovelha -Cooperativa de Queijos
Tortulho -é uma espécie de cogumelo (Atenção!)*
Criadilhas ou trufas portuguesas
Bolos : Borrachões ; bolos de leite e de mel ;esquecidos , biscoitos
Bica de Azeite
Queijo de cabra que pode ser simples , com oregãos ou alecrim
Azeites do Ladoeiro ,mas também os há
em Proença -a- Velha , em S. Migel D'Acha , no Oledo, enfim , um pouco por todo este vasto concelho de 17 freguesias
ATENÇÃO * ---AS DIFERENÇAS ENTRE OS COGUMELOS COMESTÍVEIS E VENENOSOS SÃO IMPERCEPTÍVEIS .Deixe os entendidos fazer essa escolha ...
----- Um pequeno vocabulário :
1-Marouva ---FRUTA
2-Malapos e camoesas -- qualidades de maçãs ;Meguerdas --Romãs ;Tanjarinas--Tangerinas ; Marroquinas ---Clementinas ; Tanjas -- Tangeras ; Muntas Colidades ---- Muitas qualidades ; Jospiros-- Diospiros ; Abeberas ---figos muito pequenas de cor vermelha escura arroxeada ,muito doces ; Pêxegos carecas---nectarinas ; Sanguineas ---laranjar enxertada com romã ; Verde- doce ---laranja enxertada com lima .
3-Corrantchos ---porcos
4 --Tchões --pequenas hortas.
5--Rosmanos , gestas e xaras ---Rosmaninhos , giestas e chagas (flores )
6--Jorpiga ---Jerupiga
Nota --quem necessitar de mais algum esclarecimento linguístico , faça o favor de perguntar .Esclarecerei , prontamente ...
E JÁ SABEM , ESTÃO NUMA CASA BEIRÃ ; BEM -HAJAM PELA VOSSA VISITA : CONTO CONVOSCO e COM A VOSSA OPINIÃO